As luzes se apagam e a platéia desperta para um novo transe. O artista se senta ao seu instrumento e estão todos nesse momento suspensos pela atmosfera gélida do teatro. Sabe quando jogamos um objeto para cima e no momento em que ele se move para cima é como se tudo fosse parando... E num instante ínfimo do movimento, quando atinge o ponto máximo do ímpeto ascendente, tudo ao redor é transportado para outra perspectiva de tempo. Não diria de forma alguma que tudo pára, pois acho inteiramente o oposto, é como se tudo estivesse em perfeito estado de movimento. Exatamente ai, é que começa o concerto.
As vibrações mentais vão se amontoando aos sons produzidos pelas cordas e as expressões corporais nos revelam um misto de sentimentos de jubilo e desconforto. Aparentemente todos num concerto apreciam a música, no entanto, creio que isso seja só uma aparência, considerando que alguns estão lá por motivos de resgate e não por contemplação. Nem mesmo o artista está assegurado desta condição, é bem possível que tudo ocorra como um inteiro sacrifício em direção ao entendimento ou salvação.
Em meio à cena, o teatro parece se mover em direções opostas, o artista flutua e irradia os acordes no ponto mais alto de sua conexão com a música, enquanto na platéia, notam-se uns honrados e outros a beira da fuga. Penso que num concerto tradicional e nos moldes europeus, o repertorio poderia ser interrompido na metade ou ate mesmo nem ter começado, visto que as pessoas se sentiriam muito mais felizes se fossem convidadas ao centro da apresentação. Afinal, centro é uma palavra engraçada! Sempre me faz pensar em submissão. Gostaria de pensar em algo unificador e que envolvesse a todos sem demais concessões.
Os sons que antes eram flutuantes agora começam a não passar de um palmo. O artista volta a sentir o chão, as pessoas voltam a senti-lo e os corações voltam a bater aliviados. As notas em contraponto palestrino anunciam a cadencia final da cerimônia, regressando para o ponto inicial em que a atmosfera é pura e paira como um beija-flor sob as cabeças. É neste pequenino instante em que nós podemos sentir o próprio peso e levantar rapidamente para dar os devidos cumprimentos ao artista. O concerto acaba!
Mesmo sem ouvir absolutamente nada que se manifestasse no âmbito do audível, a platéia de surdos se levanta e caminha alegremente para vossas casas, desejando um próximo encontro.
Muzak, muzak, muzak!
Obrigado
Plínio Paludetto
Titulo do texto: Música quando é música.
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