Olá a todos,
recebi este email pela Kétlen.
Como é um tema que tem me acompanhado há algum tempo e como faço parte de uma comunidade (Música e Escola de Música da UFMS) junto com vocês todos, gostaria de fomentar um pouco as reflexões.
Conheço todas as pessoas que estão no vídeo, e com exceção do Sr. que se chama Profeta, conheço pessoalmente e profissionalmente. Por profissionalmente quero dizer que estive trabalhando com eles por algum tempo. Com alguns, por anos.
Baseado nessa experiência, que começou em 1997, cheguei à conclusão na atualidade que a lei de incentivo à cultura não é um caminho interessante.
Coloquei um recado no vídeo no You Tube que já quer dizer algumas coisas.
1) As pessoas dizem que a cultura no estado é precária e que não é valorizada. Assim surgem as primeiras questões. O que é cultura? Qual é o seu valor?
Noto que há sim uma cultura e que ela é sim valorizada. Quando comemos uma determinada comida, tomamos tereré, cantamos música sertaneja, nos vestimos de tal maneira, construimos nossas casas com determinada forma, etc. isso tudo está inserido no contexto da cultura. E esse contexto está profundamente ligado aos meios de produção do local. Ou seja, a cultura em nosso estado está atrelada à produção do campo.
Assim, a cultura que tem algum valor é aquela que se relaciona ao campo. Lembremos que o incentivo do governo vem dos setores produtivos, e o setor produtivo em nosso estado vem da agropecuária. Dessa maneira, acho natural que a cultura que alguns artistas divulgam seja desvalorizada em nosso estado. Realmente não tem valor nesse contexto.
Mas à revelia dessa evidencia, queremos fazer todo mundo engolir aquilo que achamos que é cultura. Para mim é muito natural que nenhum teatro encha, que o valor dos ingressos nunca seja o adequado. Ora, se somos estrangeiros em terra p ovoada, devemos pedir licença para entrar. Mas não é assim que anunciamos nossos chamados valores culturais.
Convictos de que nós é que estamos certos, seguimos bradando contra esses "bárbaros, incivilizados, não cultos" uma cultura alienígena ao processo cultural da região, que é baseado na cultura do campo.
2) Por que então o Governo, entidade pública, deve financiar, sustentar uma empresa falida e deslocada?
3) Se a cultura é algo tão valioso e tão importante, por que as empresas não investem em cultura a partir de seu próprio caixa? Por que usam do dinheiro público para isso?
4) Se vou abrir uma empresa e recebo dinheiro, isso usualmente é um empréstimo. Por que a empresa cultural, um grupo de teatro, por exemplo, não tem que devolver o dinheiro público que toma "emprestado"?
É fácil discorrer sobre a importância de meu produto cultural em uma terra que poucos têm como entender a arte. Que m é que consegue, mesmo entre nós, ouvir um concerto e compreender o que está acontecendo? Ou então, assistir a uma peça de teatro e perceber o que está acontecendo? Como então o bem cultural pode ser valorado?
E a resposta é: ninguém paga pelos ingressos, ninguém contrata essas empresas de forma digna.
Porque não presto contas ao consumidor, mas a alguns poucos entendidos (e talvez não tão entendidos) funcionários do governo (talvez artistas frustados...?). Assim fica bem fácil, não acham?
Ou seja, posso fazer o que quiser, de certa forma, e isso será valorado. Bem, de certa forma, justiça é feita quando uma parcela ínfima da população aparece para consumir o produto, se é que realmente aparece. Em minha experiência com teatro, nunca vi o público aumentar. A comentada "formação de platéia". A platéia não vai ao teatro. O público é composto em sua grande maioria por amigos dos artistas, familiares, outros artistas, apr endizes de artistas, mas não da população geral. Salvo situação em que uma pressão é exercida com investimento de muita energia do Governo, como nos casos de shows com artistas em voga na mídia, ou então quando a presença é popularesca (festivais) ou está condicionada a algum benefício extra-artístico. Lógico que estou sendo generalista, mas não parece que existe algum sentido aqui?
5) Dizem que cultura está no mesmo nível de prioridade que saúde e educação. Absolutamente não concordo. A cultura está vinculada a aqueles. É decorrente. Se a cultura (como a entendemos, especialmente no sentido do entretenimento) não acontece é porque as pessoas não comem, não estão sadias e especialmente, não tiveram um processo de educação decente, em todos os sentidos, familiar, escolar, social, comunitário, filosófico, religioso, político, etc.
Pensem, se a educação cumprir seu papel, provavelmente o agente cultural se instalar á em todas as pontas: o artista, os meios, o público. Um público que não passou pela educação não tem como compreender os signos culturais, e tampouco os artísticos. E mesmo nós artistas, com frequência somos público também.
6) As pessoas tendem a compreender a política de uma forma a atender seus interesses imediatos.
Não votem em determinado candidato só porque ele quer atender a seus interesses. Os deveres do Governo, em nosso caso, vão muito além da cultura. Esforcem-se para compreender isso. Por exemplo, se o setor rural não produzir, a arrecadação diminui e os funcionários públicos não recebem. Isso desestabiliza tudo. Nossa atividade é completamente secundária. Assim, escolham seu candidato observando como ele se comporta com o negócio grande, e depois, com o negócio pequeno. Não se permitam servir de massa de manobra. Sejam bem criteriosos com relação a isso.
7) É evidente como o resto da sociedade não dá valor a artistas. Em minha experiência, cheguei à conclusão que grande parte desse comportamento se deve a nós mesmos. Não temos postura.
Mesmo na universidade, qual de nós estuda de maneira contundente, organizada? Qual de nós produz? Qual de nós faz justiça ao professor que tem diante de si? Qual de nós limpa a sala, organiza as carteiras, zela pelo bem público?
Não sei como está agora, mas em minha época era muito comum ninguém estudar as coisas. Nosso dever é estudar. Produzir. Quantas pesquisas estão em andamento fomentadas pelos alunos? Quantos projetos de extensão os senhores desenvolveram no último ano? Que retorno têm dado ao esforço da comunidade para que estivessem na escola neste momento?
Vocês acham que isso será esquecido mais tarde? Saberemos a resposta quando formos vender nosso produto. Quando tivermos que aceitar um ingresso no teatro custar 5, 10 reais e ainda assim ver pessoas reclamando do valor, ou então ver mais cadeiras vazias do que cheias, etc.
O que sinto é que devemos o quanto antes nos tornar referência em ética, conhecimento e produtividade dentro de nossa comunidade. Isso sim contribuirá para formação de valor de uma maneira sólida.
Com essa minha lógica, podem entender que eu deva ser perfeito, mas absolutamente não sou. No entanto, isso não me impede de observar e refletir. Entendo que na verdade quanto mais percebo minhas falhas, mais devo me corrigir.
O governo tem questões bem mais primárias para resolver: saúde, educação, corrupção, transporte, alimentos, etc. Gostaria que nós fôssemos uma solução e não mais uma preocupação na pauta dessas pessoas.
8) Acredito em uma sociedade de deveres. Quando há muitas pessoas clamando seus direitos, é muito mal sinal. Entendo que quando os deveres são cumpridos voluntariamente, naturalmente os direitos se estabelecem, mas não consigo imaginar q ue o contrário seja verdade.
Gostaria que as pessoas quando entram no prédio do curso de Música da UFMS, que elas sentissem honra só de por o pé para dentro. Gostaria muito que fosse assim. Que qualquer discurso fosse insignificante diante desse fato. Gostaria que o valor de nossa ação não fosse medido pela ação da política partidária e do assistencialismo do Governo. Somos mais que isso, muito mais que isso.
Estou sendo bem sintético nesse texto. Espero que possamos refletir juntos. Por favor se manifestem.
Estejam em paz. Muito obrigado!
Nola Pompeo.
www.nola.mus.br
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